O Mal
Ao seu redor
Só havia destruição
Olhou para o céu
Com ar interrogativo
A um Deus
Em que não acreditava.
No Afeganistão
Os cães vomitavam.
No Iémen
As mulheres
Puxaram as Burkas
Para taparem os olhos.
Na Holanda
As tulipas
Murcharam.
Joana
Não a D’Arc
Nem a Louca,
Na cozinha
Salpicava de lágrimas
O tampo de fórmica
Da mesa.
Joana tinha parido
Um nado-morto.
As bruxas de Salém
Riam-se.
Diziam
Que tinha sido
Mal fecundada
Pelo Diabo.
Não fora.
Fora violada
Por um militar
Agressor
Da guerra
Contra o seu país.
Um outro militar
Este do seu país,
Ferido de morte
Apontara
A espingarda
Ao violador.
Um estampido,
O violador
Caiu
De bruços
Sobre
Joana.
Joana,
Não a d’Arc
Tinha a alma
A arder
Na pilha
Da violação.
Joana,
Não a louca,
Enlouquecera
Do sémen
Dentro
Do seu ventre.
Ele agarrou-lhe
Na mão,
Levou
A chapinhar
Os pés
No mar.
No areal
Um homem com
chapéu,
Sentado numa cadeira
de lona,
Diante de uma tela
Pintava
De azul
As ondas
Negras
Da tempestade
João Magalhães
Sócio n.º 17.714 |
Madeira, a aguarela
Da esverdeada Madeira, assim pintada:
Montanhas abruptas, flora adensada,
Onde só o mar que banha os pés, é liso.
Aparatoso adorno, num céu benigno,
Seu pranto é manto de virgem pura,
Onde o acolhedor tempo, perdura e dura
Num rosto belo, ledo e mui fidedigno.
Ao constituí-la o seu Criador terá escrito:
- Um oceano de beleza que só a ti pertence;
- Rainha serás de todo o universo, assim eu dito.
Mas, Madeira! Será que haja quem pense
Que o teu rincão de encantamento bendito
Não seja de Deus, o seu melhor presente?
José M. S. Caria
Sócio nº. 17.496
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