A introdução da Inteligência Artificial (IA) no dia-a-dia das pessoas e as implicações no sector financeiro e nos trabalhadores bancários estiveram em debate numa conferência organizada pela Ala de Quadros da UGT e pela Comissão de Quadros e Técnicos do Mais Sindicato
Pedro Gabriel
A conferência “Os Quadros da Banca na Era Digital” teve lugar no dia 25 de setembro, no Auditório Delmiro Carreira, na sede da UGT, em Lisboa.
A abertura foi feita por Daniel Matos, coordenador da Comissão de Quadros e Técnicos do Mais Sindicato, que referiu a incorporação da Inteligência Artificial (IA) na estratégia dos bancos e deixou alguns tópicos de introdução ao primeiro painel:
1. Em que medida a IA é atualmente um motor essencial da transformação digital no sector financeiro?
2. Que oportunidades e riscos estão associados? A implantação da IA conduzirá a mudanças profundas nas profissões e nos empregos no sector financeiro, em particular nos Quadros da Banca?
3. Que novas exigências/competências serão exigidas aos Quadros da Banca no sentido de motivar, comunicar eficazmente e orientar o desenvolvimento profissional dos seus colaboradores? Qual o papel dos sindicatos neste processo?
Transformação
O primeiro orador foi João Ferreira, vice-presidente do Mais Sindicato, que começou por apresentar um vídeo com 60 anos que apresentava as inovações da época no setor bancário.
Na sua opinião, “a digitalização bancária não é só uma mudança tecnológica, mas também uma transformação estrutural”, um facto comprovado pela redução significativa do número de balcões e pela proliferação dos canais digitais. A nível da estrutura de trabalho, João Ferreira explicou que existem cada vez menos tarefas operacionais, tendo sido substituídas pelas mecanizadas e por uma automatização das funções analíticas e comerciais.
Com o surgimento da Covid-19, essa transformação acelerou-se e “obrigou” as pessoas a utilizarem mais os canais digitais.
Requalificar
Esta transição que se observa atualmente exigirá esforços de todas as partes, trabalhadores e bancos. Para tal, segundo João Ferreira, é necessária uma aposta forte na requalificação de trabalhadores e na formação contínua por parte das entidades patronais.
Os sindicatos assumem aqui um papel extremamente importante, devendo ser parceiros estratégicos dos trabalhadores e dos bancos nessa transição digital.
“É necessário negociar quadros de proteção para os trabalhadores no sentido de evitar dispensas e apostar antes na requalificação para outras funções”, explicou.
A concluir, João Ferreira referiu que a transformação digital é inevitável, mas não tem de ser obrigatoriamente desumana, e que o futuro da banca não será de quem tem mais tecnologia, mas de quem souber integrar a componente humana com a parte tecnológica.
Adaptação
Alberto Simão, vice-presidente do SBN, foi o orador que se seguiu tendo notado que a IA e a transformação digital no setor bancário “deve ser perspetivada tendo em consideração as oportunidades e os riscos que lhe estão associados”, destacando-se a automatização de tarefas repetitivas e compliance, a gestão de análise de dados, com os bancos a lidarem com milhões de transações diárias, o business intelligence e a capacidade de detetar anomalias com algoritmos de
machine learning.
Apesar dos riscos, o vice-presidente do SBN acredita em novas oportunidades de emprego como especialistas em apoio digital, analistas de dados, técnicos de cibersegurança ou auditores de IA e ética digital.
Para Alberto Simão, a negociação coletiva deverá passar a incluir cláusulas relacionadas com a IA e garantir a existência de ética e direitos digitais, como transparência na utilização da IA no controlo dos trabalhadores, o uso dos dados pessoais dos trabalhadores e a garantia da dignidade do trabalhador.
Desafios
A última oradora foi Helena Carvalheiro, presidente do SBC, que alertou para o facto de a IA estar a provocar enormes alterações no quotidiano, para o bem e para o mal, e por isso ser uma realidade que o setor financeiro não pode ignorar e à qual se deve adaptar.
“O recurso à banca digital, que já vinha a crescer há uma década, tem vindo a conquistar um espaço cada vez mais alargado devido à IA”.
Como estão então os sindicatos a reagir a esta revolução? Para a dirigente, os sindicatos ainda não estão suficientemente preparados para reagir a uma mudança como a IA, numa altura em que as empresas do setor já estão a investir e vão investir mais. Esse investimento acarreta muitas vezes uma redução dos postos de trabalho. Em contrapartida está a surgir a necessidade de novas competências, gerando novas oportunidades através da formação e da requalificação. “Os sindicatos têm de estar muito atentos às novas ameaças, de forma a prever os riscos para os trabalhadores e antecipar as soluções para os evitar e para vencer as dificuldades. Estas questões vão assumir enorme importância nas negociações coletivas, pelo que os sindicatos terão de fazer um enorme esforço de preparação e atualização constantes para enfrentar os novos desafios”, rematou.
A liderança na era digital
O segundo painel da conferência abordou a introdução da era digital na perspetiva patronal
O painel intitulado “Como adaptar a liderança na era digital?” contou com Bruno Jivan, diretor central de Inovação e Planeamento do Novo Banco, Pedro Raposo, diretor de Recursos Humanos do Banco de Portugal, e moderação de Mónica Costa, jornalista da Abilways Portugal.
À pergunta “Como se adaptam as lideranças e a valorização das competências humanas?”, Bruno Jivan explicou que a liderança deve garantir uma transição justa e equilibrada com o fator humano. “Devemos tirar partido desta era digital e olhar para ela não como uma ameaça, mas como uma oportunidade para as pessoas usarem o tempo para se capacitarem e adquirirem novos skills para as profissões que vão surgir. Não acredito que haja perigos de desaparecimento de funções”, referiu.
Bruno Jivan indicou que o objetivo passa por convidar as pessoas com perda de produtividade e ajudá-las a construir um agente em IA que as ajudará a serem mais produtivas. Por seu turno, Pedro Raposo alertou que, à semelhança do que aconteceu com a televisão, a rádio ou a internet, a IA traz coisas positivas, mas tem também os seus perigos, sendo que o papel das lideranças é enorme. “Preocupa- me, principalmente, os três is. O primeiro é o crescente individualismo em que não é preciso falar com os outros. O segundo é a maior intolerância para com os outros depois de se ter falado com uma máquina, por exemplo, como o ChatGPT. E o terceiro é a ignorância. Cada vez há mais pessoas com mais informação, mas menos sabedoria. E a pessoa que tem sabedoria consegue relacionar conceitos”.
Privilegiar a vertente humana
No caso dos bancários, como é que a digitalização está a mudar os perfis profissionais que são mais procurados pela banca?
Para Bruno Jivan, é um facto que as tarefas mais rotineiras estão a perder espaço em detrimento dos perfis de análise de dados e cibersegurança, mas não basta saber tecnologia. São necessárias “competências humanas como a adaptabilidade e principalmente o pensamento crítico, o cruzamento dos vários conhecimentos e de sermos exigentes com o output que a máquina dá. Temos de ter esta capacidade de pensamento critico e estratégico”.
O diretor do Novo Banco refere que as instituições bancárias querem pessoas que aprendam depressa e saibam trabalhar em equipa. “São empresas de uma forte base tecnológica e sempre tivemos de adaptar perfis e de capacitar pessoas. A banca não está a substituir pessoas pelas máquinas, mas sim a dar novas ferramentas. Nos próximos anos quem dominar a IA, análise de dados, cibersegurança e processos digitais estará muito bem posicionado”.
Pedro Raposo falou sobre a Alia, a IA do BdP, e a academia de data science como exemplos de aposta em formação, referindo que as pessoas aprendem depressa como aconteceu durante o Covid-19.
O diretor acredita que os próprios sindicatos devem contratualizar formação e as entidades devem recrutar pessoas pela capacidade comportamental para depois treinar a parte técnica.
Conhecimento
Perante a questão sobre se estamos a assistir a uma valorização crescente de perfis mais tecnológicos face aos bancários tradicionais, Pedro Raposo rejeita esse pressuposto, indicando que não vê aumento de contratação de perfis tecnológicos. “Ainda acredito que o processo de venda é profundamente humano, porque é um processo de confiança. Os influencers têm crescido muito, mas o que é um influencer? Alguém em que eu confio. É à distância, mas tem um humano por trás.
Para o diretor, o papel da liderança tem de ser inclusivo, dar a todos as ferramentas de aprendizagem e ter mais atenção a quem apresenta mais dificuldades. “As pessoas não são todas iguais. Cabe à liderança estar atualizada e informada e conhecer bem com quem trabalha”.
A adaptação a uma nova realidade digital |
 Antes da palestra final, Elizabeth Barreiros, presidente da Ala de Quadros da UGT, referiu que o impacto da digitalização vai muito além das ferramentas tecnológicas porque tocam no coração das profissões e no próprio modo de pensar o trabalho, acreditando que a conferência serviu para deixar muitas reflexões sobre o futuro. A última intervenção ficou a cargo de Nuno Fradique, CEO da KLC e docente no ISCTE, que trouxe para o centro do debate o Phygital, que ao contrário do que muitas pessoas pensam não é a transição do mundo físico para o mundo digital. “Na prática, é a união entre os dois mundos. Aquilo que o mundo físico tem e que o digital pode ajudar, mas também o contrário”, explicou. A palestra motivou várias intervenções por parte do público, fechando da melhor maneira a conferência. |
