
Gerar resultados, restaurar a confiança e combater o crescente populismo. O caminho europeu não se adivinha fácil nem curto. Elizabeth Kuiper e Pietro Valetto acreditam que existe uma palavra-chave para a União Europeia voltar a encarrilhar: abundância
Elizabeth Kuiper e Pietro Valetto*
Nas últimas semanas, o termo "abundância" tomou conta do mundo político dos EUA. Originário do livro homónimo de Ezra Klein e Derek Thompson, best-seller do New York Times, a sua filosofia rapidamente ganhou força como possível manual para os democratas que procuram recuperar da derrota nas eleições presidenciais de 2024. Embora o livro seja obviamente focado na política americana, também contém lições valiosas e alertas que devem ser considerados pelos líderes europeus que procuram manter o projeto europeu unido no meio de mudanças geopolíticas.
No centro da "Agenda da Abundância" está uma ideia enganadoramente simples: para criar o futuro que desejamos, precisamos construir e inventar mais do que precisamos. Klein e Thompson chegam ao extremo de argumentar que a escassez é uma escolha política e não uma consequência de limitações naturais, sendo as
restrições autoimpostas pelos governos frequentemente culpadas por impedir o progresso em áreas como habitação, infraestruturas, saúde e transição verde.
Contrassenso**
Uma das críticas mais contundentes do livro é dirigida diretamente ao seu público-alvo. Os autores argumentam que o atual Partido Democrata caiu no "liberalismo de placas de jardim", um fenómeno em que os eleitores são simbolicamente liberais, demonstrando apoio a campanhas de justiça social e, ao mesmo tempo, são operacionalmente conservadores, lutando para impedir as próprias políticas que levariam ao aumento da equidade, mesmo que isso signifique abrir mão de apenas parte de seus privilégios existentes.
Essa hipocrisia é evidente em estados conservadores como o Texas, governados por céticos climáticos, que, no entanto, por meio de uma abordagem laissez-faire (deixar fazer), conseguem instalar de forma consistente muito mais capacidade de energia solar (+240% em 2023) do que a progressista Califórnia, onde a ação climática é defendida de forma retórica, mas dificultada por barreiras regulatórias que bloqueiam ou atrasam uma implementação significativa. Da mesma forma, enquanto São Francisco enfrenta uma crise habitacional, apesar da crença generalizada da Califórnia no direito fundamental à habitação, Dallas consegue construir dezenas de milhares de casas a mais por ano (22.480 a mais do que as 1.823 de São Francisco em 2023) e ostenta algumas das menores taxas de sem-abrigo do país.
Coragem
A União Europeia pode aprender muitas lições com este livro. Também pode reconhecer alguns dos seus próprios sucessos, especialmente ao comparar os cuidados de saúde e a educação nos Estados Unidos. No entanto, a principal conclusão é que os populistas ganham apoio não apenas a partir de problemas económicos, mas também da crença de que os governos são ineficazes. Os eurocéticos esforçam-se por enquadrar a União Europeia como lenta, excessivamente burocrática e mais focada em processos do que em resultados.
Embora a UE tenha historicamente demonstrado a sua capacidade de agir decisivamente em momentos de crise, como com a criação do fundo Next Generation EU de 750 mil milhões de euros no início da pandemia, bem como com o recentemente adotado pacote de defesa Rearm EU de 800 mil milhões de euros, esta abordagem reativa está a revelar- se insuficiente. Para contrariar as narrativas eurocéticas e garantir a resiliência, a UE deve adotar uma mentalidade de abundância que priorize o progresso proactivo e contínuo em vez de esperar por situações de vida ou morte.
Significa ter a coragem de abraçar plenamente iniciativas ousadas como as delineadas nos relatórios Letta e Draghi e demonstrar a capacidade da UE de produzir resultados tangíveis e significativos que melhorem diretamente a vida dos cidadãos.
Significa medir o sucesso não pelo tamanho do orçamento, como no caso do Rearm EU, mas pelo impacto real alcançado com os recursos alocados. Significa resistir à tentação de desregulamentar de forma a minar os compromissos climáticos em prol de ganhos de competitividade a curto prazo e, em vez disso, concentrar- se na eliminação dos gargalos burocráticos que impedem a implementação de tecnologias essenciais para um futuro mais verde, mais digital e mais equitativo.
Investimento
Como a habitação é um dos principais focos do livro, o sucesso do nosso primeiro Comissário para a Habitação deve ser medido pelo número de casas adicionais construídas durante o seu mandato, e não pelo montante despendido nessas iniciativas. Isto significa que a UE deve colmatar a lacuna de investimento em habitação social e acessível, como destacado no relatório Draghi. Deve também criar ferramentas para monitorizar o progresso e medir o impacto social. Estas ferramentas ajudarão a responsabilizar os líderes e a garantir que os investimentos são utilizados de forma eficaz.
Isso significa que a expansão de novas tecnologias em setores como energia limpa, IA e biotecnologia não deve ser apenas uma mera prioridade política, mas que a atenção deve voltar-se para a implementação desses objetivos. Atualmente, uma correção significativa do curso rumo à neutralidade carbónica é necessária, mas o discurso em Bruxelas caminha na direção oposta. Ter objetivos políticos definidos para implementar essas tecnologias em larga escala não é suficiente; metas realistas e modelos de previsão são necessários para torná-las realidade, mas a vontade política necessária para assumir o desafio precisa vir em primeiro lugar.
Abundância
Considerando os preparativos em curso para o próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP) e o futuro dos principais fundos da UE, como o Fundo de Coesão, implementar uma agenda de abundância também significa reforçar os objetivos da política social na formulação de políticas da UE. Claramente, no atual contexto geopolítico, seriam necessários compromissos entre diferentes áreas políticas. Estes,
no entanto, precisariam ir além de uma escolha binária bastante simplista entre defesa ou bem-estar, como outros argumentaram. Aplicar uma mentalidade de abundância significa que o foco principal das negociações futuras deve ser em gastar melhor, em vez de gastar mais, e focar nos resultados das reformas, em vez do orçamento em si.
Abundância não se trata apenas de construir mais coisas e melhor; trata-se de mostrar que os governos podem ser eficientes e obter os resultados que os cidadãos exigem em tempo hábil. Trata-se de mostrar que a Europa pode prosperar transformando ideais em ações e garantindo que as suas promessas sejam correspondidas por resultados.
A atual turbulência geopolítica deve servir de trampolim para dar à Europa um novo e fundamental senso de propósito. O tempo do incrementalismo já passou; a Europa deve agir decisivamente para construir abundância para todos.
*Elizabeth Kuiper é Diretora-adjunta e Chefe do programa Europa Social e Bem-estar no Centro de Política Europeia em Bruxelas;
Pietro Valetto é investigador doutorado no Centro Herman Deleeck de Política Social na Universidade de Antuérpia. Estuda a pobreza de ativos e a desigualdade de riqueza na União Europeia e nos Estados Unidos.
**Subtítulos da responsabilidade da Redação.
