
Alcançar, através da negociação coletiva, mais voz e melhores salários para os trabalhadores europeus de serviços foi o objetivo traçado na VI Conferência da organização sindical para os próximos anos
Inês F. Neto
Mais de 600 sindicalistas de meia centena de países europeus reuniram-se em Belfast, na Irlanda do Norte, para participarem na VI Conferência da UNI Europa, que decorreu de 25 a 27 de março, e marcou os 25 anos da organização. O MAIS esteve representado por Cristina Trony, Tesoureira, e Vânia Ferreira, presidente da MAG. Após três dias de debate, partilha de experiências e troca informações sobre campanhas bem-sucedidas, a reunião magna culminou com o estabelecimento de novas estratégias para fortalecer o poder dos trabalhadores europeus até à realização da próxima conferência, em 2030. Outro ponto alto foi a reeleição de Oliver Roethig e Peter Hellberg, e a escolha de Lieveke Norga para primeira vice-presidente.
A Conferência contou ainda com a presença e intervenção de vários políticos, entre os quais e a primeira-ministra e a ministra da Economia da Irlanda do Norte, respetivamente Michelle O’Neill e Caoimhe Archibald, ou o presidente da Câmara de Belfast, que enfatizaram o papel fundamental dos sindicatos na promoção da justiça social e na construção de uma sociedade próspera e justa.
Negociação coletiva
A importância da negociação coletiva e da organização sindical além-fronteiras foram temas em destaque nos debates, com líderes sindicais a partilharem estratégias para revitalizar os sindicatos e adaptá-los às mudanças do mundo do trabalho (ver caixa).
A relevância da colaboração entre sindicatos europeus foi destacada em diversas histórias de sucesso, como o crescimento anual do Financial Services Union (FSU) ou os avanços em acordos coletivos envolvendo inteligência artificial.
Já as discussões sobre transformação estrutural, estratégias inclusivas e campanhas específicas por setor demonstraram como as condições laborais estão a ser progressivamente melhoradas, apesar de constantemente aparecerem novos e significativos desafios.
Desafios e exigências
Da Eslováquia à Finlândia, dirigentes sindicais relataram estratégias para reconstruir o poder sindical em condições adversas.
O debate destacou os desafios críticos enfrentados pelo movimento sindical moderno, como o impacto crescente da inteligência artificial (IA) no setor de serviços e a hostilidade de algumas empresas de tecnologia contra os sindicatos e a democracia.
Um tema central foi a reforma das compras públicas, com os sindicalistas a exigirem que os contratos públicos da UE estejam vinculados a acordos coletivos. Esther Lynch, secretária-geral da Confederação Europeia de Sindicatos (CES), condenou práticas antissindicais, citando como exemplo a Tesla.
Nesse sentido, a campanha “No Public Contract Without Collective Agreement” (não aos contratos públicos sem convenção coletiva) da UNI Europa foi amplamente elogiada como modelo de mudança.
Os líderes sindicais europeus enfatizaram também a necessidade de salvaguardas para proteger os trabalhadores, evitando a discriminação e o controle excessivo.
Como exemplos, Mari Carmen Donate (FESMC-UGT, Espanha) defendeu que decisões baseadas em IA sejam sempre supervisionadas por pessoas, enquanto Riccardo Saccone (SLC-CGIL, Itália) alertou para os riscos da IA generativa no enfraquecimento da proteção de direitos autorais, exigindo novas leis sociais e um Estado de bem- estar modernizado.
Já Annette Mikelsen (Finansforbundet, Dinamarca) apresentou um programa para treinar um milhão de dinamarqueses em competências relacionadas à IA, destacando que a tecnologia deve gerar empregos melhores, não ameaçar postos de trabalho.
Por fim, Heidi Bang (Negotia, Noruega) reforçou a necessidade de os sindicatos lutarem pelo progresso, enfrentando o poder concentrado das grandes empresas de tecnologia.
União e ação
Os discursos finais da VI Conferência ressaltaram o papel central dos sindicatos na defesa da democracia e a necessidade de união para continuar a aumentar os direitos dos trabalhadores.
Christy Hoffman, secretária-geral da UNI Global Union, apelou a uma ação corajosa dos sindicatos em tempos difíceis, defendendo o uso ético da IA e os direitos democráticos.
Já Oliver Roethig, secretário regional da UNI Europa, reforçou a meta de alcançar mais voz e melhores salários para os trabalhadores de serviços na Europa, através da negociação coletiva.
A Conferência terminou com a reafirmação do compromisso de construir um movimento sindical forte e inclusivo, com foco em dignidade, justiça e equidade para os trabalhadores na Europa.
Exemplos com sucesso |
Na VI Conferência da UNI Europa, vários dirigentes sindicais partilharam histórias de sucesso. Eis algumas:
- Bélgica: Lieveke Norga, sindicalista da ACV-PULS, destacou a luta histórica por jornadas de trabalho mais curtas e um melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal e anunciou uma paralisação de 8 minutos no dia 8 de maio, em todo o país;
- Irlanda: Ian McArdle, do CWU, destacou como nas últimas eleições os trabalhadores pressionaram, com sucesso, os políticos para apoiarem a negociação coletiva. O respeito no trabalho deve ser um direito, não um privilégio, salientou. O CWU e outros três sindicatos irlandeses receberam o primeiro prémio “Forward Through Collective Bargaining”.
- Alemanha: Frank Werneke, presidente do sindicato alemão ver.di, destacou o sucesso de sua campanha no Deutsche Post, que resultou em aumentos salariais significativos e mais de 20 mil novos membros. |
