João Ferreira
A venda do Novo Banco ao grupo francês BPCE marca o fim a um processo longo e turbulento, caracterizado por incertezas e especulações. A escolha de um investidor sem presença em Portugal (no setor bancário) pode ser vista como o menos mau dos cenários. Preserva-se a concorrência no sistema bancário, ganha-se um acionista com músculo financeiro para capitalizar a instituição. As garantias dadas pelo CEO do BPCE são naturalmente bem vidas, mas não bastam.
Para os trabalhadores, é um momento de alívio — mas também de legítima apreensão. O que está em causa não é apenas uma transação financeira. Está em causa o futuro de milhares de pessoas que, com esforço e resiliência, mantiveram esta instituição viva nos seus momentos mais sombrios.
Não podemos esquecer que o Novo Banco (que, entretanto, adotou a marca novobanco) foi construído sobre os escombros do colapso do BES, em 2014. Desde então, foram os trabalhadores que asseguraram a continuidade da operação, muitas vezes em condições adversas. E foram os contribuintes portugueses que, com um esforço coletivo de 4,9 mil milhões de euros, evitaram o colapso do sistema financeiro. Ver esse investimento nacional ser agora vendido por 6,4 mil milhões de euros — 4,8 mil milhões, o valor correspondente à participação de 75% detida pela Lone Star e o remanescente receberá o Estado, direta ou indiretamente— levanta questões que não podem ser ignoradas.
É verdade que o cenário atual parece menos ameaçador do que aquele que se especulava, caso a escolha de venda recaísse sobre um grupo financeiro a operar em Portugal. Mas isso não deve ser motivo de complacência. A entrada de um novo acionista exige vigilância redobrada. É essencial que as promessas de manutenção dos cerca de 4.200 postos de trabalho se traduzam em compromissos concretos e juridicamente vinculativos. Não podemos permitir que reestruturações ou mudanças de discurso corporativo ponham em risco o que foi arduamente conquistado.
Por trás dos números — 32 mil milhões em créditos, 39 mil milhões em depósitos — estão vidas. Famílias que dependem do seu salário, projetos de vida que não podem ser sacrificados em nome da rentabilidade. A eficiência financeira não pode ser um pretexto para desumanizar as relações de trabalho.
O Mais Sindicato adotará uma postura de vigilância ativa e acompanhará na primeira linha a evolução, com a experiência de décadas de lutas e a determinação de quem sabe o que está em jogo. Esta nova fase exige firmeza, transparência e, acima de tudo, respeito por quem sempre esteve na linha da frente.
O epílogo desta saga só estará verdadeiramente escrito quando se comprovar que serviu, de facto, os interesses de Portugal, dos portugueses e dos que trabalham e trabalharam no novobanco.
