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Protesto ibérico

Bancários em concentração por aumentos salariais dignos

27/02/2024


Centenas de bancários manifestaram-se frente à APB para exigir aumentos justos nos salários e pensões de reforma. E se a banca não evoluir na sua proposta de 2% a luta vai continuar, garantiram os presidentes do Mais Sindicato, do SBC e do SBN. Em Espanha, o protesto foi idêntico


Inês F. Neto

Apesar da chuva e vento intensos, centenas de bancários no ativo e na reforma concentraram-se na tarde de quinta-feira, dia 8 de fevereiro, junto ao edifício da Associação Portuguesa de Bancos (APB), em Lisboa, em protesto pela posição “miserável” das Instituições de Crédito (IC) na negociação salarial para 2024: aos 6% reivindicados pelos Sindicatos da UGT responderam com 2%.
O mau tempo não desmotivou os manifestantes, que de t-shirts brancas com a palavra “Basta!” impressa e protegidos por impermeáveis igualmente brancos, empunharam cartazes e gritaram palavras de ordem como “lucros máximos... aumentos mínimos”, “basta! Por trás dos números estão vidas”, “bancários reformados continuam desprezados”, “APB, escuta, os bancários estão em luta”, “para os bancos milhões, para os bancários tostões” e “trabalhámos para os vossos lucros, queremos aumentos justos”.

“A fibra dos bancários”
No final, os presidentes do MAIS, do SBC e do SBN, Sindicatos que organizaram a concentração, que contou com o apoio da UGT, deixaram a garantia de que este foi apenas o início da luta.
“Apesar deste temporal estamos aqui. Isto mostra a fibra dos bancários na luta. E vamos continuar”, disse António Fonseca, do MAIS, sublinhando a presença de trabalhadores do Norte, do Centro e do Sul do país. “Temos de continuar a nossa guerra, temos de continuar a nossa luta. Não podemos aceitar míseros 2% de aumento quando os bancos têm tantos e tantos milhões de lucro. Basta!”, frisou.
Recorde-se que enquanto duplicam os lucros, os bancos subscritores do ACT do Setor Bancário fizeram uma contraproposta de aumentos para este ano de 2%, e a CGD de 3%.
“Os bancos mudaram a bitola e dizem que estão a tentar negociar com base na perspetiva de inflação de 2024. Nunca foi assim”, tinha já afirmado o presidente da Direção do MAIS, sublinhando que os bancários têm estado a perder poder de compra, pois em 2023 o aumento foi de 4,5% contra uma inflação de 7,8% em 2022, e no ano passado a taxa de inflação foi de 4,3%.
António Fonseca dirigiu uma palavra especial aos reformados, que só têm uma forma de aumentarem a sua reforma: pela negociação da tabela. “Não têm possibilidade de ver a reforma indexada aos produtos que vendem ou aos objetivos cumpridos. Por isso a vossa luta é a nossa luta.”
O presidente da Direção do Mais Sindicato salientou a importância de os bancários “gritarem” o seu descontentamento e fazerem ouvir a sua voz. “Isto é só o começo para que as nossas negociações continuem com força”, frisou.
Porque, como lembravam os cartazes, os bancários não são só números – por trás existem famílias.


União ibérica
António Fonseca adiantou que esta é “uma luta ibérica”, pois trata-se de uma iniciativa conjunta dos Sindicatos dos Bancários da UGT portuguesa com a UGT de Espanha e as Comissiones Obreras. Assim, também os bancários espanhóis saíram à rua neste dia.
Como explicou por diversas vezes durante a concentração, a luta conjunta com os congéneres espanhóis justifica- se porque os problemas dos trabalhadores são os mesmos, bem como o objetivo de sensibilizar os administradores para a necessidade de aumentos justos, independentemente de em Portugal a negociação ser anual e em Espanha por quatro anos.
Além disso, frisou, “muitos dos bancos a operar em Portugal têm capital de bancos de Espanha”.

“Isto é o início”
“Os 2% que a banca nos quer dar está muito aquém da justa valorização dos trabalhadores e reformados bancários”, afirmou Helena Carvalheiro, do SBC, ao explicar as razões da realização da concentração.
A valorização das carreiras e o aumento das reformas no setor, que “são as mais baixas de todos os setores de atividade”, são outros dos motivos, adiantou, frisando que a manifestação foi “só o início da luta”.


“Insatisfação”
Por sua vez, Mário Mourão, do SBN e líder da UGT, sublinhou que a concentração é a forma dos bancários demonstrarem “a sua insatisfação pela resposta que a banca tem dado aos Sindicatos e aos trabalhadores, que contribuem para os milhões de lucros que a banca ao fim do ano distribui aos acionistas”.
Esses lucros, sublinhou, “devem-nos aos bancários, ao seu esforço, à sua exigência, muitas vezes ao não cumprimento do horário estabelecido”.

Negociações
Para o dia da concentração estava agendada uma reunião na APB entre o grupo negociador das IC subscritoras do ACT do setor e os Sindicatos da UGT, mas que foi adiada pela banca.
A justificação foi estarem a analisar uma proposta de acordo que implica diversos cálculos, que ainda não estavam concluídos.

UNI solidária

A luta conjunta dos bancários portugueses e espanhóis foi destacada pela UNI, que manifestou o seu apoio.
“Os trabalhadores do setor financeiro de Portugal e Espanha saem à rua em Lisboa e Madrid a 8 de fevereiro para exigir melhores salários. Enquanto o seu poder de compra cai a pico e os lucros da banca disparam”, noticiou a UNI no seu site. (…)
“Em Portugal, os Sindicatos exigem um aumento salarial de 6%, segurança de emprego e o fim dos cortes nos postos de trabalho, que aumentam a pressão sobre os trabalhadores e repercutem-se negativamente nos clientes.” (…) “Apoiamos os Sindicatos portugueses e espanhóis nossos filiados na sua luta por salários justos, quadros de pessoal adequados e boas condições de trabalho”, declarou Angelo Di Cristo, diretor da UNI Finanças.
Devemos unir-nos para fazer frente à pressão dos acionistas, que querem espremer os trabalhadores até à última gota para maximizar os lucros. Isso não é sustentável e, em última estância, tanto os trabalhadores como os clientes saem prejudicados”, acrescentou o responsável.



Moção
As razões do protesto

Os três Sindicatos da UGT emitiram uma moção com as razões de descontentamento dos bancários que estão na origem da concentração. São estas as suas exigências aos bancos

MOÇÃO
Basta!
Por Trás dos Números, Estão Vidas!

 Os trabalhadores bancários em Portugal dirigem-se à opinião pública e à alta administração do setor com um grito uníssono de insatisfação e preocupação com as atuais condições laborais.

A banca portuguesa, que já testemunhou a dedicação incansável de milhares de profissionais ao longo de 10, 15, 20, 25, 30 anos, parece ter esquecido o valor humano por trás dos números.

Em 2011 e 2012, enfrentámos desafios significativos, e os trabalhadores bancários foram os pilares fundamentais que contribuíram para a estabilidade do setor, muitas das vezes às custas de enormes cortes salariais.

Hoje, lamentavelmente, percebemos que, em vez de serem reconhecidos como profissionais valiosos, são tratados como escravos da banca.

As nossas reivindicações são claras:

  • Reconhecimento das Carreiras: reivindicamos a criação de carreiras sólidas que reconheçam a experiência e a dedicação dos trabalhadores ao longo dos anos;
  • Remuneração Digna: os ordenados atuais não refletem o compromisso e a importância do nosso trabalho. Propomos um aumento salarial de 6% para corrigir esta discrepância. Refutamos as propostas da Banca de 2% e 3%;
  • Componentes Variáveis no Salário Base: as componentes variáveis devem ser integralmente incluídas no salário base, garantindo maior estabilidade financeira para todos os trabalhadores no ativo e na reforma;
  • Progressão Automática: defendemos a progressão automática de um nível para todos os trabalhadores, reconhecendo o seu empenho e evolução profissional.
A verdade é que, enquanto os trabalhadores enfrentam condições precárias, os lucros extraordinários fluem para as mãos dos acionistas, muitos dos quais são estrangeiros.

Fruto do constante acréscimo de trabalho que sobrecarrega os trabalhadores, estes cada vez em menor número, fruto das constantes reduções de postos de trabalho no sector, sujeitos à pressão de trabalho suplementar não remunerado, são também os clientes prejudicados com horas de espera para serem atendidos nas agências bancárias.

Não podemos aceitar ser tratados como simples peões num jogo onde o verdadeiro valor humano está a ser desconsiderado.

Exortamos as Administrações de todas as Instituições de Crédito e as entidades reguladoras a considerar seriamente estas revindicações, pois são essenciais para manter o setor bancário saudável e justo.

Basta de sermos vistos como números em folhas de cálculo - somos seres humanos com vidas, famílias e dignidade.

Juntos, trabalhadores bancários, sindicatos e comunidade, exigimos respeito e justiça no ambiente de trabalho.

Pela Dignidade e Justiça Laboral!