
Clara Azevedo e Ana Catarina Ângelo utilizam uma solução inovadora e menos agressiva para a problemática das roturas da coifa dos rotadores, um dos grupos de músculos mais importantes para a mobilidade do ombro. A técnica que utilizam está a gerar muito interesse na comunidade médica internacional
Elsa Andrade
O Hospital do SAMS foi um dos pioneiros na utilização de uma técnica cirúrgica menos agressiva no tratamento das roturas da coifa dos rotadores, que são tendões de músculos responsáveis pela mobilidade do ombro, como a elevação e a rotação externa.
A ortopedista e investigadora Clara Azevedo, médica no SAMS, partiu do exemplo de uma cirurgia inovadora, a reconstrução capsular superior, publicada em 2013 por um médico japonês, o Prof. Teruhisa Mihata, e aperfeiçoou a técnica, que executa desde o primeiro dia em equipa com Ana Catarina Ângelo, também ortopedista no SAMS.
A patologia a que se aplica este tipo de cirurgia é relativamente comum e muito incapacitante. “As lesões nestes músculos tornam-se muito limitativas para a qualidade de vida dos doentes, pois não se consegue controlar os sintomas com medicação. No limite, estas pessoas não dormem, têm dores constantes, não conseguem mexer o braço e têm de tomar medicação fortíssima”, explica a especialista, acrescentando:
“E infelizmente há situações em que mesmo cirurgicamente estas lesões não são reparáveis. Não se consegue fazer com que a estrutura original fique a funcionar como antes.”
Até 2013 não havia nenhuma solução satisfatória para reparar estas lesões. Foi então que o médico japonês publicou o resultado de uma cirurgia inovadora, que consiste em utilizar um enxerto retirado de outra parte do corpo para substituir a função dos tendões daqueles músculos do ombro que não têm reparação possível. Chama-se reconstrução capsular superior e é feita por via artroscópica, ou seja, por via minimamente invasiva do ombro.
“O prof. Teruhisa Mihata propôs esta técnica original, mas fazia uma incisão aberta na coxa, o que pode ter alguns problemas e gerou preocupações em todo o mundo, porque é feita uma intervenção minimente invasiva no ombro, mas uma abordagem muito agressiva na coxa”, adianta a médica.
“No SAMS implementámos uma solução para tentar minimizar o impacto e melhorar a qualidade de vida dos doentes: colhemos estes auto-enxertos sem ser por via aberta mas por pequenas incisões, adaptando técnicas já utilizadas por otorrinolaringologistas noutros países para fazer reconstruções do nariz, rinoplastias. Conjugámos essas duas técnicas e, em 2015, começámos a fazer esta cirurgia no Hospital”, revela Clara Azevedo.
Em 2018, com o apoio do Coordenador da Ortopedia, Dr. Carlos Ferreira, foi criada a Unidade do Ombro no Hospital do SAMS, no âmbito da qual as médicas Clara Azevedo e Ana Catarina Ângelo realizam estas cirurgias.

Substituir o tendão
Simplificando, esta cirurgia inovadora visa substituir a função do tendão, a parte terminal do músculo.
O osso, para mexer-se, precisa que os tendões o puxem. “Quem faz essa força é o músculo, mas o que está preso ao osso é o tendão. Nestes doentes, esses tendões não existem, estão rasgados. Ou seja, não há comunicação entre o músculo e o osso”, explicam as médicas.
“Esta cirurgia veio tentar resolver esse problema com a interposição do enxerto para tentar estabilizar o osso, de maneira a que os outros músculos que ainda existem consigam trabalhar, mas sem dor”, adiantam, especificando: “Antigamente o que se fazia era pôr enxertos a solidarizar o músculo ao osso. Esta cirurgia é diferente: solidariza outro osso, a omoplata, ao braço. Ou seja, o enxerto contorna a função do tendão.”
Este tipo de lesões tendinosas podem produzir uma lesão óssea a longo prazo, porque criam uma instabilidade na articulação do ombro. “Quando os doentes tentam levantar o braço e não conseguem, o ombro sai ligeiramente do seu centro de rotação. Com o passar dos anos gera uma artrose precoce, que se chama uma artropatia da rotura da coifa dos rotadores”, referem.
“Esta técnica tendencialmente vai diminuir a evolução para a artropatia da coifa. Não só restabelece a função do doente a curto/médio prazo e diminui a dor, como também teoricamente vai prevenir a evolução para a artropatia”, acrescentam.
No entanto, salientam, esta não é a única técnica utilizada neste tipo de lesões e também não é perfeita. “Envolve gerar alguma morbilidade, ao agredir outras zonas do corpo, no caso a coxa. Mas esse impacto é muito pequeno – por isso se faz – e os doentes ficam muito satisfeitos com os resultados. Um ligeiro formigueiro na coxa compensa recuperar a mobilidade do ombro e o fim das dores incapacitantes.”
Interesse internacional
Em 2018, Clara Azevedo e Ana Catarina Ângelo publicaram os resultados obtidos – nos quais estão incluídos doentes do SAMS – em revistas internacionais de elevado impacto na comunidade científica.
“Temos vindo a divulgar a técnica pelo mundo inteiro, inclusive vamos agora receber colegas de outros países para aprenderem a técnica connosco. Também fomos a vários países ensinar em laboratório de cadáver e através de palestras, com apresentação das cirurgias gravadas em vídeo”, elencam as médicas. Em Portugal, Clara Azevedo foi convidada a fazer um vídeo para ser colocado no site da Sociedade Portuguesa de Ombro e de Cotovelo.
Nas 53 cirurgias realizadas os resultados têm sido muito positivos.
“Os resultados são excelentes e por isso há tanto interesse da comunidade internacional. Mais de 90% dos doentes ficaram satisfeitos e 85% voltariam a fazer esta cirurgia. Mesmo comparando com técnicas alternativas que têm surgido, os resultados são muito melhores”, salientam as ortopedistas.
Há alternativas a esta cirurgia, utilizando-se um enxerto de cadáver animal, mas tem vindo a demonstrar-se mundialmente que os resultados não são tão bons. Nos Estados Unidos, nomeadamente, emprega-se enxerto de cadáver humano, depois de um tratamento especial. “O custo é elevado e os resultados aparentemente são inferiores, além de ser proibido em Portugal.”

Referenciação de doentes
No âmbito da comemoração dos 25 anos do Hospital do SAMS e sob o patrocínio de Carlos Ferreira foram organizadas as Jornadas “1st SAMS Shoulder Overview”, nas quais Clara Azevedo e Ana Catarina Ângelo divulgaram o seu trabalho, com o objetivo de dar a conhecer “a todos os colegas envolvidos no tratamento de doentes com patologia do ombro as novas soluções, que são muito recentes” e assim poderem referenciar os casos que lhes surjam.
“Os médicos que estão na linha da frente a tratar os doentes beneficiam de conhecer as novas soluções que existem para casos-limite, de forma a que possam referenciar os doentes”, justificam as ortopedistas.
E, contrariamente ao que se julga, no universo dos bancários há muita patologia do ombro e do cotovelo. “A posição de sentado o dia inteiro ao computador implica posturas que contribuem e favorecem a evolução para a patologia, quer do ombro quer, e muito, do cotovelo.”
O objetivo da criação da Unidade do Ombro é dar uma resposta mais especializada a este grupo de doentes do SAMS, razão por que foi até concebida uma “via verde” do ombro, facilitando aos profissionais o encaminhamento célere dos doentes referenciados.
