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Editorial: Os trabalhadores não são dispensáveis!

27/05/2014

​Rui Riso
 
A facilidade com que as empresas se instalam e abandonam países pode ser uma virtude da globalização, mas não podem continuar a considerar as pessoas como coisas de que se livram assim que não precisam delas, interrompendo ou aniquilando sonhos e projetos de vida em curso, que no fundo são o futuro de pessoas e de sociedades
 
 
Os acontecimentos das últimas semanas são reveladores do pior que um sistema económico é capaz.
Anuncia-se em Inglaterra o destino de milhares de trabalhadores do sul da Europa, noticia-se em Espanha que poderá vir a ser alterado o futuro de centenas de trabalhadores portugueses.
Num caso e noutro o que está subjacente às decisões é o facto de a atividade não ser suficientemente rentável. Não tem nada a ver com a competência, dedicação e capacidade de gerar lucros dos trabalhadores – é tão só porque a expectativa de lucro não foi alcançada e há que não esperar mais, vai-se à procura de outras paragens onde o lucro seja maior.
A facilidade com que as empresas se instalam e abandonam países pode ser uma virtude da globalização, mas não podem continuar a considerar as pessoas como coisas de que se livram assim que não precisam delas, interrompendo ou aniquilando sonhos e projetos de vida em curso, que no fundo são o futuro de pessoas e de sociedades.
A liberdade de instalação de empresas em espaços económicos como o europeu tem necessariamente de ser regulada, até porque uma coisa é ser desempregado em países com baixos níveis de desemprego e outra bem diferente é ser desempregado em países em que o desemprego é estrutural e onde muitos dos que perdem o trabalho dificilmente virão a recuperá-lo.
Os que entendem ser os rendimentos dos trabalhadores o entrave ao desenvolvimento económico e à criação de emprego, impedindo por anos o aumento do ordenado mínimo e obstaculizando de forma implícita ou explícita o normal funcionamento das relações de trabalho entre empregadores e trabalhadores através dos seus representantes, minorando a importância da contratação coletiva, lembro-lhes o exemplo da Suíça, onde um referendo impediu o aumento do ordenado mínimo de 2.920 CHF para 3.300 CHF. Porquê? A explicação adiantada é que o ordenado mínimo é auferido apenas por 9,1% dos trabalhadores, quase todos os outros auferem já mais do que os 3.300, pelo que entendeu quem votou que a diferença nada traria de novo à sociedade suíça.
E já agora vale a pena referir que o desemprego é de pouco mais de 3%.
Fica claro que não é o valor alto do salário que impede a criação de emprego, bem ao contrário, porque aumenta a procura e consequentemente o desenvolvimento económico.
Num país como Portugal, em que tanto se fez em 40 anos – mudou-se o regime, descolonizou-se, democratizou-se, criou-se o SNS, abriram-se as escolas a todos, extinguiu-se praticamente o analfabetismo, melhoraram-se as vias de comunicação, alargou-se o saneamento básico a praticamente todo o País, abriu-se as fronteiras aderindo à então CEE, mudou-se de moeda – num País assim não se pode voltar atrás: o seu povo não o merece.
E vale também a pena lembrar que em todas essas alterações os sindicatos estiveram presentes, ou não fossem os sindicatos indispensáveis ao funcionamento de qualquer democracia.
Como diz o presidente da CSI, Michael Sommer, "os sindicatos são o mais forte que os mais fracos têm" e não pode ser só em momentos de maiores dificuldades que reconhecemos a sua importância, que será sempre tanto maior quanto maior for a sua representatividade.